‘Como a cultura consiste em comportamentos aprendidos por
uma dada sociedade, homens e mulheres "aprendem" comportamentos
diferentes fazendo com que existam duas grandes culturas: a feminina e a
masculina, com seus respectivos sistemas de valores simbólicos, crença e
formação próprios.
A cultura feminina, no entanto, carregam valores que
subordinam a mulher a normas que a privam de liberdade e obrigam a ocupar
apenas espaços restritivos dos quais a saída, principalmente no século XIX,
revela-se quase impossível.
Como solução, vestem-se as mulheres com roupas masculinas
e/ou usam pseudônimos masculinos visando a serem aceitas. George Sand, um
desses exemplos, cujo verdadeiro nome é Armandine-Aurore-Lucile Dupin, fumava
cigarros, vestia calças, viveu maritalmente com Chopin.
Há muito que a história nos informa do grande número de
mulheres que tiveram que recorrer a esse artifício para poder fazer parte de
uma sociedade que lhes negava a entrada.
A ficção, tanto de autoria masculina quanto de feminina,
representa essa "saída" em várias publicações. Na ficção brasileira,
Diadorim é, provavelmente, a personagem mais notória.'
"A arte não é um estudo da realidade positiva; é uma
busca da verdade ideal". (Sand, "O Charco do Diabo", 1846.)
‘A adoção de comportamentos "não-femininos" chamou
a atenção da sociedade para George Sand. Desse forma, através dos seus textos e
história de vida, idéias e comportamentos, principalmente, George Sand propõe
uma imagem nova da postura feminina, imagem que de tão ousada atravessa
fronteiras e atinge outras culturas.
Esse comportamento libertário que escandalizou a França do
século XIX, cujos ecos são ouvidos ate hoje, alcançou as mais diversas culturas
inclusive a cultura brasileira. Nesse sentido, a obra e a existência de George
Sand tornam-se um referencial tomado como depoimento de uma época crucial de
transformações profundas para a História da mulher na França e no mundo.'
"Povos do Brasil, que vos dizeis civilizados!
Governo, que vos dizeis liberal! Onde está a doação mais
importante dessa civilização,desse liberalismo?"
(FLORESTA: 1989b, 43).
‘E é pela tradução de seus escritos que a voz sandiana
alcança o Brasil. Mas não somente os textos de Sand nos fazem descobrir um
comportamento feminino variado no século XIX. Nísia Floresta (Dionísia
Gonçalves Pinto)*, tendo morado na Europa, deixa-se envolver pelas idéias
feministas da época e faz uma tradução da obra de Mary Wollstonecraft.
Suas idéias inovadoras e revolucionárias farão dela a
primeira feminista brasileira. Enriquece, ela também, dessa forma, a História
da cultura feminina no século XIX. Sua obra contribui para melhor compreensão
da História da cultura feminina no Brasil e de mudanças no comportamento das
mulheres brasileiras.
A sua vida, assim como a vida de George Sand, cuja obra é
conhecida de Nísia, é um reflexo de suas ideologias libertárias e inovadoras.
Tendo casado aos treze anos e abandonado um marido muito mais velho encontra-se
na situação estigmatizada de mulher sem "virtude".
A sua atuação nas letras traduz-se pela autoria de novelas,
contos e poesia. No jornal, publica idéias que escandalizam. Morou em Paris e
em 1853 publicou uma série de escritos sobre a condição feminina. Auguste
Comte, com quem estabeleceu uma correspondência mais tarde, tendo tido
conhecimento desses escritos, elogiou o seu trabalho.
Escreveu Opúsculo Humanitário, que reúne textos sobre a
emancipação feminina. Seu último trabalho foi Fragments d'un ouvrage inédit:
notes biographiques. Nísia faleceu na França em, aos 75 anos de idade, e lá foi
enterrada. Durante três períodos morou na Europa, num total de 28 anos
(1849-1852, 1855-1872 e 1875-1885).
Nísia Floresta, assim como Sand, foi também uma militante
pelos direitos das mulheres, porém as suas ações não se limitaram a essa
questão. Envolveu-se também nas discussões sobre a escravidão. A sua tradução
(cultural)* de Vindication of the rights of woman, de Mary Wollstonecraft, a
torna a vulgarizadora do pensamento da feminista inglesa.
A publicação em português tem o título de Direito das
mulheres e injustiça dos homens e foi publicada em 1832. Aí, defende o direito
que tem a mulher à educação e à independência econômica. Esboça-se, em sua
publicação, um novo papel para a mulher na sociedade brasileira.'
‘Bem diferente foi a jornada Mukhtar Mai, mulher
paquistanesa, consagrada pela mídia por se recusar a continuar vivendo na
condição de submissão e eleita a mulher do ano de 2004. Não sabendo escrever,
Mai narra a sua história para outra mulher que a escreve.
Mai, 28 anos, julgada por um tribunal masculina,
não-oficial, por uma leviandade (sem provas) praticada por seu irmão de 12
anos, é condenada a ser violentada sexualmente por quatro homens. Essa foi a
resposta que o "tribunal" deu ao seu pedido de perdão, em lugar de e
pelo irmão, exigência desse mesmo tribunal.
Decidida a encontrar uma saída para a própria existência e
tendo renunciado a se valer do suicídio, alimentada pelo desejo de justiça e de
vingança, Mai, com a ajuda de mulheres de cultura ocidental, enfrentou o poder
masculino do Paquistão e conseguiu que os seus agressores, que além de tudo
ainda a ameaçava de morte, fossem condenados.
Assim nasceu o seu livro: em resposta a uma situação
inaceitável de submissão a normas irracionais e sexistas. Exatamente como
alguns textos de Sand ou de Nísia. Essas três mulheres, com sua atitudes de
reação na vida e na literatura, proporcionam um entendimento preciso de Cultura
Feminina.'
* BEDASEE, Raimunda. A cultura feminina nas suas relações
com a tradução cultural in: Vozes, olhares, silêncios: diálogos
transdisciplinares entre a ligüística aplicada e a tradução. Denise Scheyerl,
Elizabeth Ramos (organizadoras). - Salvador: EDUFBA, 2008. 250p.
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